Queira o Sr. Perito contar um pouco sobre o que são Bitcoins

BitCoinsNos últimos meses ouvimos falar bastante a respeito das Bitcoins, principalmente depois que diversas instituições e governos passaram a demonstrar especial interesse pela moeda digital. Mas o que é uma Bitcoin, afinal? O que está por trás de toda essa agitação do mercado e quais os riscos que ela ainda representa?

Uma Bitcoin é uma moeda virtual, também chamada de criptomoeda. Ela é utilizada na realização de transações financeiras via internet e almeja tornar-se padrão para transações eletrônicas. Uma transferência de Bitcoin é efetivada através de protocolos criptográficos de código aberto. Esses protocolos são independentes, o que significa que não existe nenhuma instituição centralizadora que os fiscalize ou cuide de sua gestão, como um banco ou instituição ligada ao governo.

Até aqui tudo parece absolutamente normal, certo? Acontece que, da forma como essa tecnologia foi desenhada, as transações são realizadas, em termos gerais, por meio de uma rede peer-to-peer[1] que armazena de forma distribuída um banco de dados sobre as transações.

Vamos, então, analisar a questão conceitual antes de prosseguirmos. Se não existe nenhuma entidade de confiança ou emissor centralizado para as transações, como um servidor bancário, por exemplo, quem garantirá a confiabilidade das transações? E quem serão os responsável por eventuais fraudes, tais como as que foram realizadas há poucos meses com a descoberta e exploração de vulnerabilidades de recursos do Android[2] que resultaram no roubo de milhares de Bitcoins? Obviamente essa é uma questão muito mais jurídica do que técnica, entretanto, as medidas técnicas necessárias para a responsabilização dos autores de eventuais crimes realizados ou facilitados com uso da rede de transações Bitcoin fica bastante prejudicada.

Uma segunda questão importante refere-se à rastreabilidade das transações. Uma vez que qualquer compra, venda ou transferência de Bitcoins acontece através de uma rede peer-to-peer, a quem devemos recorrer quando for necessário identificar a autoria de uma transação fraudulenta ou criminosa? Essa questão é mais fácil de ser tecnicamente respondida: – Não, não é possível identificar a origem da transação, a não ser que você seja um de seus participantes e tenha monitorado a comunicação durante a transação, pois já que a comunicação acontece via peer-to-peer, não há servidor ou empresa a ser interpelada para fornecer os logs que demonstram qual IP foi utilizado na transação.

Não obstante os problemas conceituais da Bitcoin, grandes instituições e até mesmo governos vêm discutindo seriamente seu uso legítimo como moeda. Segundo o jornal Wall Street Jornal, o governo norte-americano já reconhece a Bitcoin como moeda legítima. “O Departamento de Justiça reconhece que moedas virtuais oferecem um serviço financeiro legítimo e têm potencial para promover um comércio global mais eficiente”, comentou Mythili Raman, procurador-geral adjunto da divisão criminal do departamento. Após esse pronunciamento a moeda supervalorizou, chegando a ser cotada a US$ 900,00.

Embora a Bitcoin possa, de fato, representar um grande avanço na forma de se fazer transações financeiras, é importante lembrar as possibilidades de transações criminosas realizadas com essa tecnologia. Hoje, crackers vendem serviços criminosos através da rede de comunicações IRC em troca de Bitcoins. O pagamento via Bitcoin, por sua vez, trouxe certa proteção para os crackers, uma vez que não haverá qualquer log ou registros sobre a transação. Dentre os serviços ofertados, destacam-se DDoS (Distributed Denial of Service), invasões de sistemas, pichação de sites, roubo de perfis, entre outros. Há, ainda, dezenas de mercados-negros que brotam a cada dia na internet para comercialização de Bitcoins. Alguns deles podem ter sido formados, por exemplo, para lavagem de dinheiro ganhado com práticas crackers.

No site The Hacker News há informações de que um malware capaz de bloquear criptograficamente arquivos infectou mais de 12.000 usuários norte-americanos. O malware bloqueia os arquivos do computador ou servidor infectado e somente libera o acesso ao conteúdo dos arquivos após inserção de uma senha de desbloqueio. Essa senha só é fornecida à vítima mediante pagamento de Bitcoins. Além de a vítima ser ameaçada de ter todos os seus dados destruídos se não efetuar o pagamento, a quantidade de Bitcoins aumenta com o passar do tempo.

Notem que, nesse caso, assim como em um sequestro, além de contar com o anonimato das operações, os criminosos contam com pressões psicológicas para induzir a vítima a pagar antes mesmo de qualquer medida, como comunicar a polícia.

Obviamente existem programadores independentes, empresas e entidades dispostas a lutar pela Bitcoin. Em virtude disso, podemos contar com muitas discussões sobre o tema nos próximos meses. Além disso, essa é uma tecnologia relativamente nova, nascida em meados de 2008, que ainda terá muito o que crescer e se desenvolver até alcançar o ambicioso objetivo de se tornar a moeda oficial da internet. Até lá, acompanharemos de perto todas as mudanças e ficaremos de olho!


[1] Uma rede peer-to-peer, ou ponto a ponto, é uma topologia de rede em que dois ou mais computadores conversam entre si diretamente sem intermédio de outros servidores.

2 comentários sobre “Queira o Sr. Perito contar um pouco sobre o que são Bitcoins

    • Grande Fábio, obrigado por acompanhar nosso modesto blog. Fico contente em saber que um ex-aluno e parceiro de profissão tão querido quanto você está gostando do nosso trabalho. Fique à vontade e opine sempre que puder, será um imenso prazer tê-lo conosco enriquecendo cada post. Abs.

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